Filipe Barros quer ser o candidato de Bolsonaro no Paraná

Deputado federal de primeiro mandato, Filipe Barros (PL) – que tem base eleitoral em Londrina (região Norte) – abriu mão de uma reeleição, em tese, relativamente tranquila – para disputar o governo do Paraná a pedido do presidente Jair Bolsonaro (PL). Segundo ele, a ideia é garantir um palanque para Bolsonaro no Estado, diante da indefinição do governador Ratinho Júnior (PSD) sobre quem apoiará na disputa pela Presidência da República.

Barros critica Ratinho Jr, a quem acusa de ter se “encastelado” no Palácio Iguaçu, evitando o contato direto com a população, e fechando os olhos para as dificuldades reais dos paranaenses. Ele critica ainda a condução da pandemia da Covid-19 pelo atual governo, que segundo ele, replicou no Paraná as políticas de restrição à atividade econômica adotadas pelo ex-governador de São Paulo, João Doria, adversário de Bolsonaro. Em entrevista ao Bem Paraná, o parlamentar e pré-candidato afirma como espera viabilizar sua candidatura, e o que faria diferente de Ratinho Jr, caso seja eleito para o posto máximo da política do Estado.

Reportagem – O senhor está no primeiro mandato como deputado federal, e teria, em tese uma reeleição tranquila para o cargo. Porque resolveu abrir mão disso para disputar o governo?

Filipe Barros – Nós decidimos lançar nossa candidatura a pedido do presidente Jair Bolsonaro. Para garantir ao presidente um palanque estadual, diante da indefinição do atual governador Ratinho Júnior. Decidimos formar uma base de partidos apoiadores da nossa candidatura. E os próximos passos, agora, dependem do presidente Bolsonaro. Nós sabemos que o atual governador tem buscado o presidente em uma tentativa de conciliação. Agora, se isso de fato vai ter resultado em vai ser efetivo, nós não sabemos. Se não for efetivo, a nossa candidatura será mantida.

Reportagem – Tudo indica que o PSD do Ratinho Jr não terá candidato próprio à presidência e vai liberar seus representantes nos estados a apoiarem quem quiserem. Nesse caso, a tendência é o governador apoiar Bolsonaro em troca do apoio para a sua reeleição. Como ficaria a sua candidatura?

Barros – Depende dessa composição que o atual governador tem buscado fazer com o presidente Bolsonaro. Porque não é simplesmente o atual governador sinalizar apoio ao presidente. Aliás, recentemente quando o presidente esteve aqui em Londrina, um dia antes o governador esteve aí. Você veja que falta de tato político, por que não veio junto com o presidente Bolsonaro? Por que não quis estar junto com o presidente Bolsonaro na exposição ? Porque que vem um dia antes? E aí um dia antes o Ratinho deu uma entrevista dizendo que ele pode sinalizar apoio ao presidente. O governador virou agora semáforo para ficar sinalizando alguma coisa? Então veja, essa tentativa de composição passa por algumas partes. A primeira delas é saber efetivamente qual vai ser o engajamento do governador em uma candidatura do presidente Bolsonaro. Outro ponto, a candidatura ao Senado que o presidente Bolsonaro tem dito que importantíssimo para ele. Como que o atual governador vai se comportar? Porque nós sabemos que havia um acordo do fio do bigode do governador Ratinho Jr com o senador Álvaro Dias do Podemos. Existia até uma conversa de que na época que o Sergio Mouro era pré-candidato a Presidente da República, o atual governador apoiasse o Sérgio Moro. E aí como que vai ficar essa composição tendo em vista esse acordo que já havia firmado com o senador Alvaro Dias? O senador tem dito que se não tiver o apoio do governador ele vai ao governo. Então esse desenho dessa composição é que precisa ser feita pelo governador Ratinho Jr para o presidente saber o Ratinho vai entregar e aquilo que apenas disse ou não vai entregar.

Reportagem – Quem são os pré-candidatos ao Senado do grupo de vocês?

Barros – Nós temos um nome, o deputado federal e meu amigo, Paulo Eduardo Martins. Deputado que veio para o PL, partido do presidente, porque é o nome do presidente Jair Bolsonaro para disputar o Senado no Paraná.

DIÁLOGO

‘O governador se trancafiou no palácio’

Reportagem – O senhor tem conversado com outros partidos para uma aliança?

Filipe Barros – Tenho. Eu já tinha uma conversa, por exemplo, com o PTB. Eu quase me filiei ao PTB lá atrás, isso logo que a gente estava com aquela briga partidária com o PSL. O PTB já tinha me convidado para assumir o PTB aqui no Paraná e eu mantive conversas desde então. Outros partidos menores de número, mas não de qualidade. Como o Democracia Cristã e outros partidos.

Reportagem – Qual a avaliação geral que o senhor faz do governo Ratinho Jr?

Barros – É um governo que não dialoga, não governa. Para governar um estado com ao pujança do Paraná é necessário, em primeiro lugar, gostar daquilo que se faz. E a impressão que eu tenho é que o atual governador não gosta daquilo que faz. Ele governa pouco, trabalha pouco. E principalmente, não conversa. Não é possível a gente governar e administrar um estado como o Paraná, sem ir para rua, sem conversar com as lideranças políticas, empresariais do Estado, sem contato direto com o povo. Pelo contrário, na exposição, o governador veio aqui e teve que pedir escolta da Guarda Municipal de Londrina porque não pode ter escolta da Polícia Militar com medo de ter vaia. Então, a que ponto nós chegamos, o governador entrando pela porta dos fundos da Sociedade Rural do Paraná, sendo escoltado pela Guarda Municipal. Nada contra, eu sempre defendi a Guarda Municipal e continuo defendendo. Mas esse papel é da Polícia Militar. Então, é uma reclamação que eu ouço com frequência da base aliada do governador, dos deputados da base do governador. O governador se fechou, se trancafiou dentro do Palácio Iguaçu. Só sai de lá para pegar o helicóptero para a sua fazenda aqui em Alvorada, e depois de sua fazenda retornando para Curitiba.

Reportagem – O que o senhor acha de como o governador tratou a pandemia?

Barros – Temos dois pontos aí. O primeiro ponto é que o governador Ratinho Jr buscou evitar entrar naqueles conflitos encabeçados pelo governador de São Paulo, João Doria. Então o João Doria fazia aquelas manifestações contra o governo federal, governo Bolsonaro e o governador Ratinho Jr buscou não entrar nessas bolas divididas. Mas em contrapartida, fez no Paraná aquilo que Doria fez em São Paulo. Os fechamentos, os lockdowns. Tudo aquilo que foi feito em São Paulo foi replicado no Paraná. Eu me lembro, inclusive, que teve um evento feito na pandemia, em Foz do Iguaçu, com o presidente Bolsonaro, em que o setor de turismo já estava, depois de meses, sem qualquer tipo de faturamento. Estava lá, reclamando, fazendo manifestação contra o governador, e o governador ficou impressionado com as vaias que recebeu. Isso no início da pandemia. Ou seja, falta contato com o povo, porque se tivesse contato com o povo, ele saberia exatamente que o povo estava descontente com a conduta adotada por ele na questão da pandemia.

Reportagem – Qual a sua principal bandeira de campanha?

Barros – Segurança pública. Nós temos homens e mulheres das forças de segurança, corajosos, que dão a sua própria vida para a garantia da lei e da ordem. E que tem sido maltratado nos últimos governos, em especial esse governo. Que é um governo de fake news, de mentiras. Que vem a público mentir dizendo que aumentou determinados por cento dos salários dos agentes das forças de segurança, e quando vamos ver na prática, é outra coisa totalmente diferente. Para justificar o aumento estratosférico de verba publicitária, até para a própria rede de comunicação da família, o governador tem produzido fake news atrás de fake news. Então, sem sombra de dúvida, a minha principal bandeira é a segurança pública. É dar o reajuste que os nossos policiais merecem e esperam. É estruturar melhor a Secretaria de Segurança Pública que entendam de segurança pública e não pessoas que não entendem bulhufas desse assunto como o Coronel Marinho, que está completamente perdido. É de fato cuidar da segurança. Uso de tecnologia para auxiliar no combate à criminalidade.

SERVIDORES

Ideia é ‘dar o reajuste necessário’

Reportagem – Na campanha de 2018, o Ratinho Jr afirmou que ia procurar estabelecer com os servidores uma negociação de longo prazo sobre a data-base do reajuste do funcionalismo. E não foi isso que aconteceu. O governo deu algum reajuste, depois manteve os salários congelados, esse ano foi 3%. Qual a política salarial que o senhor pretende estabelecer com o funcionalismo geral do Executivo?

Filipe Barros – Dar o reajuste necessário, mas acima de tudo com diálogo. Porque a ideia que o governador havia dado lá atrás, e que ele não cumpriu, de fato é uma boa ideia. Só que não foi cumprida pelo atual governador. Porque tudo se resolve com transparência e diálogo. Se o governador chegasse para os agentes da segurança pública, e dissesse “estamos saindo de uma pandemia, não tenho condições de dar o reajuste agora, tenho condições de fazer isso e aquilo, eu tenho certeza que os policiais iam entender. Agora o que revolta a todos é a divulgação de mentiras. É o governador recentemente vir à público dizer que os policiais estavam reclamando de barriga cheia. Não estão. Toda essa conversa, esses encaminhamentos relativo às pautas dos servidores públicos devem ser feitas com a transparência e o diálogo necessários. Dá trabalho? Dá trabalho, mas nós que estamos nos disponibilizando a governar o Estado temos que encarar esse desafio. Ninguém obrigou o atual governador a sair de sua confortável casa para virar governador. Ele fez isso porque ele quis. Então que assuma o ônus de ser governador e não só o bônus de ficar viajando de helicóptero pelo Estado. Enquanto disse que não tinha dinheiro para dar reajuste para os servidores, está criando cargos agora para o Ministério Público. Deu uma série de benefícios para o Ministério Público. Então, os promotores têm suas demandas? Tem. Qual é o grau de importância, de hierarquia. É claro que o orçamento público é limitado, mas nós temos que eleger prioridades. Isso tem faltado no atual governo.

Reportagem – O presidente Bolsonaro tem cobrado dos governadores a redução do ICMS sobre combustíveis. Se eleito, o senhor pretende baixar esse imposto?

Barros – Dentro desse assunto do combustível, um subtópico é o combustível do avião. O governador passado, Beto Richa (PSDB), havia diminuído o imposto sobre o combustível de avião. Isso trouxe um impacto direto no preço das passagens aéreas. O Paraná acabou se transformando em um “hub” para as companhias aéreas. Então, os aviões vinham para o Paraná abastecer e saíam para outros lugares. Passagem aérea diminuiu sensivelmente. Estes dias eu fui criar uma passagem de Londrina para Curitiba, R$ 3 mil. Veja que absurdo. Por falta de sensibilidade do secretário da Fazenda do atual governo. Se a candidatura confirmada e, eventualmente, nós estivermos no Palácio Iguaçu, isso tudo vai mudar.

Reportagem – O ICMS sobre combustíveis representa 15% da receita do Estado. Como compensar a perda de arrecadação com a redução do imposto?

Barros – Atraindo indústrias e empresas fomentando a economia local. Eu conversava recentemente com o Iapar, que me trouxe inúmeros projetos de pesquisa que eles têm feito no Estado. Por exemplo, o projeto de implantação de côco. Tem regiões do Estado que podem plantar côco. Nós temos em Faxinal os tomateiros, produtores de tomate. Em Pato Branco e Londrina, também, um grande incentivo para empresas de tecnologia da informação. Nós temos os produtores de mandioca na região de Paranavaí. E todos esses setores da economia podem ser fomentados. E portanto, a renda do Estado pode ser aumentada através do fomento de atividades econômicas já realizadas. Mas como o governador faz isso? Em primeiro lugar, tendo consciência da dimensão econômica do Estado, o que me parece que o atual governador não tem. Em segundo lugar, conversando com o setor produtivo do Estado, não apenas a Fiep, que também é importantes. Mas nós precisamos conversar com o pequeno produtor, os microempreendedores que tiveram dificuldades nessa pós-pandemia, que tiveram que fechar suas empresas e estão pagando dívidas hoje. Precisamos criar incentivos para que essas pessoas possam se fortalecer e fomentem a economia local.

Reportagem– Qual a avaliação que o senhor faz do novo modelo de concessão do pedágio proposto pelo governo federal?

Barros – Eu acompanhei esse debate desde o início. Eu já defendi o modelo inicial proposto pelo ministro Tarcísio (de Freitas). Quando a população começou a fazer vários questionamentos, os deputados estaduais também, eu me sensibilizei a eles. Porque esse assunto é traumático para todos os paranaenses. Vários governadores fizeram palanque político-eleitoral em cima disso, como o atual governador tem feito agora, e não resolveram o problema. Então o ministro Tarcísio alterou o edital do Paraná. Esse edital está hoje no Tribunal de Contas da União para que o TCU faça as observações e esse edital seja publicado e o leilão seja feito pela Bolsa de Valores. Eu concordo com o formato feito. Teve um momento em que eu sugeri ao ministro Tarcísio que fizesse a concessão somente das rodovias federais, e deixasse as rodovias federais para o governador fazer. Mas isso não foi possível tendo em vista a dimensão e o tamanho daquilo que o ministro havia planejado para o Paraná. É importante a gente dizer que para tentar, mais uma vez, fazer palanque político-eleitoral em cima do pedágio, o governador procrastinou o quanto pode, fazendo com que a gente chegasse no momento em que as cancelas fossem levantadas. Fazendo populismo e colocando a vida dos paranaenses em risco. Porque as rodovias estão sem assistência, inseguras, pessoas estão sofrendo acidentes, não tem ambulância, estão esburacadas. Tudo isso, é por conta de uma eleição, fazendo populismo às custas do pedágio, da mesma forma que o Requião fez, com o “abaixa ou acaba”, que no final das contas não abaixou e não acabou. Aumentou. É a mesma coisa que o atual governador tem feito.